Corporis


Adoro me apresentar em teatros e teatralmente. Em 1994, convidei nosso melhor dramaturgo para dirigir Corporis. Nessa época, eu havia me encantado com A Ciência Jurídica e Seus Dois Maridos, do jusfilósofo argentino Luiz Alberto Warat, de forte influência da nova filosofia francesa (Gilles Deleuze, Felix Guattari, Roland Barthes). De outra parte, o filme Drácula, de Bram Stoker, me despertou um clima neogótico, de sombras, poesia e sensualidade. Quis trazer isso para a música e para o palco. Foi quase um ano de oficinas e ensaio sob a direção de Betho Rocha. No elenco: Kelen Mendes, sem dúvida, a grande revelação, hoje cantora e compositora reconhecida; Sâmea Brito, que ali iniciava uma novo percurso em sua vida, trocando seu papel de secretária recatada pelo glamour do teatro; Nilda Dantas - a melhor intérprete do pedaço, com presença de palco arrebatadora (a melhor, segundo Betho); Mabel Barros, maravilhosa com seu sax dourado (onde andarás, menina?); Araguacy Brazil, a mais ousada do grupo, pois, mesmo nunca tendo atuado, protagonizou um belíssimo nu artístico (papel recusado pela Cila) e Ivan de Castela, artista versátil, entre nós o mais íntimo com a linguagem do teatro. Natal Santos, o Nath (hoje, doutor em medicina), foi assistente de direção e de programação visual. A luz foi dirigida especialmente pelo Betho e operada pelo Azeitona (e que luz aquela!!!). A flauta, a gaita e os efeitos eletrônicos ficaram com o inspirado João Veras, que deu um tom psicodélico e lounge ao roteiro, com sons fenomenais. A fotografia foi do José Diaz. Uma equipe e tanto! Convidei, recém-chegado da Itália, Danilo Di S'Acre, para desenhar livremente e expor no hall do Teatro Plácido de Castro a temática do espetáculo. Foi a primeira e única vez que Betho dirigiu um espetáculo musical, com tanto foco e determinação. Ele não gostava dos músicos de nossa aldeia, pois os considerava insensíveis à linguagem do teatro. Dizia Betho que, em Rio Branco, músicos só se apresentavam em butecos, não tinham a dimensão do trabalho do espetáculo, tocavam para entreter tagarelas e consumidores cheios de si. E quando tinham que se apresentar em um teatro, transformavam o palco literalmente num bar. Betho tinha e continua tendo toda a razão. Mas Corporis foi uma exceção. É uma pena que esse espetáculo, uma reflexão estética sobre o corpo e o desejo, tão fundamental na minha carreira, tenha sido omitido - por falta de aprofundamento, ignorância ou má-fé - dos documentos sobre a obra do Betho, após seu brutal desaparecimento. Estranho esquecimento de nossa história cultural. A perseguição política promove o ódio, a violência e a eliminação da memória coletiva.


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