Fragmentos

Em 1995, apresentei Fragmentos. O tema da vez era o movimento de busca do singular e do desconectado de sistemas e totalidades. No programa estava escrito:


"Não mais que um recital, interpreto belas canções falando de loucura, amor, sedução e poder. Porções de Pessoa, Joplin, Caetano, Chico, Mautner e outros são lançadas no palco para que o público reflita, a seu modo, suas inquietações com a pós-modernidade anunciada. Música e semiótica fragmentadas em sons e signos: a proposta estética do espetáculo. Com simplicidade, mostro uma arte em relação, invocando outras linguagens num ritual de passagem para a busca do outro, em novo tempo e espaço".


No final, uma citação de Gramsci:


"O artista não sinaliza exteriormente seus fantasmas apenas para sua recordação pessoal, para poder reviver o instante da criação, mas só é artista na medida em que sinaliza exteriormente, em que objetiviza e historiciza seus fantasmas".


Eis um exemplo de como sempre conjuguei minha música com a arte e a filosofia, ou anti-filosofia.


Na ficha técnica, Jorge Henrique e Karla Kristina declamaram as poesias, Jaqueline Mesquita expôs seus quadros e desenhou o cenário, Moreno tocou berimbau, o Grupo "De olho na coisa" assombrou com suas máscaras, Ivan de Castela iluminou, Elza e Gorete vocalizaram e João Veras soprou sua flauta e espalhou seus efeitos. Estávamos juntos quando o poder do Um estava longe de nós. Depois o poder do Um nos apartou. Éramos juntos e apenas brincávamos com a ideia de fragmentação. Agora estamos fragmentados de verdade e não achamos a menor graça de termos perdido o elo livre com o outro. Vivemos o tempo em que grande parte dos artistas estão no pelourinho, verticalizados pelo Um, (v)(r)endidos aos fabricantes de concordância, ainda que assim não pareça. A arte tornou-se apenas um artefato da expressão sem eloquência, da tagarelice festeira e inofensiva.


Eu estava indo embora pra Floripa, cursar meu mestrado. Foi minha despedida musical de Rio Branco, mas só tomei consciência disso quando abri o jornal e li uma matéria sobre o espetáculo - num tom que me surpreendeu - pelo jornalista Józimo de Souza, na edição da Gazeta, de 03/02/1995. A manchete dizia: "Eu quis ficar aqui, mas não podia" e o texto falava de mim de um modo que eu não costumava ouvir:

Obrigado pela força e empatia, Józimo!!!


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